A Batalha de Gênesis – parte 1

Nos primórdios do universo, antes que o tempo e a matéria fossem criados, existiam dois reinos, Alpha e Ômega. Seus habitantes eram criaturas fantásticas, detentoras da sabedoria primordial, um conjunto de leis e ordens que ditavam o existir daqueles seres magníficos.

O reino Alpha era detentor da Luz Primerva. Seus habitantes eram chamados Anjos, e sua principal função era fazer com que o mais profundo segredo de Alpha, denominado Gênesis, nunca fosse corrompido pelos seres do outro reino.

Um grupo de doze anjos governava em Alpha, na cidade-capital do reino, chamada Celestia. Eram os seres de maior hierarquia naquele reino, chamados de Guardiões. Abaixo deles, agindo como intermediários entre os Guardiões e as demais castas de anjos, estavam os Querubins e Serafins.

Os Querubins eram responsáveis pelos manuscritos sagrados do reino, estudando e catalogando toda a criação e evolução da raça dos anjos. Os Serafins eram responsáveis pela defesa do reino de Alpha, o chamado exército celestial.

Os lideres dos Querubins e Serafins pertenciam à ordem dos Guardiões. Gabriel liderava os Querubins e Miguel liderava os Serafins. Além dessas castas, existiam mais dez, cada uma liderada por um anjo poderoso, denominado Arcanjo.

Cada casta vivia em seu próprio país, onde os habitantes dedicavam-se exclusivamente ao desenvolvimento das habilidades de suas castas e cooperar para o desenvolvimento do reino como um todo. Os anjos não eram egoístas e não tinham disputas entre eles. Os países nunca entravam em guerra, e apesar das castas não se relacionarem muito bem (pois o que era
importante para alguns não tinha o menor valor para o outro e vice versa), o bem comum era mais importante para eles do que suas próprias opiniões.

No reino de Ômega moravam seres também fabulosos, chamados deuses. Existiam três grandes países, Olimpo, Asgard e Inun. Ao contrário do que acontecia em Alpha, em Ômega os reinos viviam entrando em contendas, guerras e disputas pelos assuntos mais banais. Em apenas um assunto os habitantes de Ômega concordavam: odiavam os anjos de Alpha.

Apesar das constantes disputas, os habitantes de Ômega seguiam suas leis e ordenanças à risco, não aceitando quando estas eram desrespeitadas.
Para que todos os casos fossem julgados com imparcialidade, existia desde o nascimento dos primeiros seres de Ômega, um conselho formado por seres dos três reinos. Este conselho era chamado de Conselho Primordial. Sem a aprovação do conselho, nenhuma guerra poderia ser feita.

E foi com a aprovação do conselho primordial, que os reis-deuses Odin de Asgard, Zeus de Olimpo e Hórus de Inun decidiram unanimemente declarar guerra aos anjos de Alpha. O motivo era simples: os anjos não aceitavam dividir com os deuses o segredo de Gênesis. E sem este conhecimento, os deuses jamais saberiam como criar em Ômega a Luz Primerva, que era comprada em Alpha.

Deu-se inicio então à mais sangrenta guerra entre os imortais. A Primeira Guerra Mundial. A Batalha de Gênesis.

Os exércitos encontraram-se no Vale do Éden, que era onde ficava a divisa dos dois reinos. Os três rios do mundo (Duat, Oceanus e Stix) cortavam o vale e se encontravam na Cachoeira do Amanhã, cujas águas desciam até os reinos inferiores.

O choque do encontro dos dois exércitos foi tamanho, que montes e montanhas tremeram em todo o planeta. Ao lado de Zeus, estavam seus irmãos Poseidon e Hades, observando do
Penhasco de Jó, acima da batalha. Eram eles seus conselheiros de guerra, e juntos, eram conhecidos como Os Três Grandes, temidos por deuses e anjos.

– O que acham irmãos? Para mim, a batalha parece bem equilibrada – disse o Senhor do Olimpo.

– Bem , – disse Hades – os guerreiros celestiais são mais fortes do que eu pensava. Nossa inteligência estratégica fez bem em relatar suas forças e fraquezas detalhadamente. O espião fez bem seu trabalho.

– Sim, fez. O que acha Poseidon?

O senhor soberano dos mares estudava calado a batalha. Ele era famoso por falar apenas quando tinha certeza de ter calculado todas as circunstancias. E nunca falava sem ser consultado.

– Acho que alguma coisa está errada.

– Como assim? Quis saber Zeus.

– Não quero desmerecer nossos guerreiros, meus irmãos. Os deuses têm mostrado seu valor e não se intimidam frente as numerosas legiões do inimigo. Mas algo não está certo. Os principais guerreiros angélicos não estão aqui.

Hades e Zeus olharam para a batalha novamente. Estudaram detalhadamente as lutas. Apolo e Artemis estavam posicionados logo acima do vale, em um pequeno morro. Junto com eles estavam centenas de arqueiros alados e Valquírias, todos disparando centenas de milhares de flechas nos
anjos que compunham as legiões voadoras.

Thor, Hórus e Ares comandavam as tropas terrestres em combate direto com os Serafins de Miguel. O Vingador de Inun, como Hórus era conhecido, estava em combate direto com o senhor dos exércitos celestes. A batalha era magnífica, e vários soldados de ambos os exércitos paravam de lutar, em uma trégua não declarada em palavras, baseada na profunda admiração do embate daqueles gigantes da guerra.

Miguel estava vestindo uma armadura completa de batalha, toda dourada. Segurava em suas mãos uma espada prateada, forjada nas profundezas da cidade de Celestia, pelo maior ferreiro do reino de Alpha, o anjo Dante, que forjava armas diretamente na lava do subterrâneo da cidade dos anjos.

Hórus, o senhor de Inun, usava uma Kopesh, uma espada curva feita de bronze estígio, um dos materiais mais poderosos do reino de Ômega. No cinturão, repousavam o mangual e o cajado de Rá, o primeiro grande faraó. A armadura de Hórus também era de bronze, mas deixava os braços e pernas de fora, diferente da armadura de Miguel, que cobria todo o seu corpo, menos
as asas.

As espadas se encontravam e soltavam fagulhas que queimavam alguns guerreiros mais fracos que estavam próximos. Logo, existia uma distancia considerável entre os gigantes que duelavam e os demais soldados, que buscavam ficar o mais longe possível do embate.

Atena e Ísis lutavam à frente de vários imortais detendo o avanço do exército inimigo. Junto com elas estavam Centauros, Ciclopes, Deuses-titãs, Grifos, Esfinges, Cavalos alados e outros seres do mundo fantástico de Ômega, todos matando ou morrendo nas mãos de anjos montados em leões, unicórnios, cavalos e ursos.

Os animais dos celestes eram poderosos e inteligentes. Habitavam nas florestas que cercavam as cidades de Alpha. Havia uma grande harmonia entre os celestes e os animais. O único detalhe interessante era que todos os animais eram brancos. Seus pelos ou penas eram sempre brancos.

Atena e Ísis estavam montadas nos dois cavalos mais poderosos do Olimpo. Atena montava Pégasus, o poderoso filho de Poseidon e Medusa, pai de todos os cavalos alados. Ísis montava Arion, o segundo cavalo mais rápido do mundo, perdendo apenas para Sleipnir, cavalo do rei Odin de Asgard.

A senhora da guerra tinha sua fiel escudeira Nike sempre ao seu lado, montada em outro cavalo alado chamado Ventania. As duas guerreavam com força e ousadia, e poucos angélicos tinham coragem de enfrentá-las. Até que surgiram diante delas duas guerreiras angélicas da casta das Halamitas – Ariel e Vinari, assassinas de Celestia. Estavam montadas em dois cavalos
brancos, chamados Aurora e Por do Sol.

As quatro mulheres se encararam por um tempo. As olimpianas armadas com espadas e escudos. As angélicas com bastões dourados. Pégasus e Ventania bufavam e batiam as patas da frente com ódio e sede da batalha. Aurora e Por do Sol tremiam seus músculos.

As angélicas tomaram a iniciativa e atacaram. Guiaram os cavalos em direção das deusas, girando o bastão em uma das mãos e segurando as rédeas com a outra. Quando estavam a cinco metros das deusas, prontas para disferir seus golpes, a desgraça aconteceu.

Pégasus e Ventania alçaram vôo. Pegas de surpresa pela manobra, as anjas demoraram para reagir, e pagaram caro por isso. Como se tivessem combinado, Nike e Atena pularam girando no ar enquanto os cavalos alados voavam, e em uma seqüência invisível de golpes rápidos, cortaram as asas das guerreiras celestes.

O grito de dor foi horrível, pois a asa de um anjo é parte de seu caráter, de tudo que você é.

Um anjo sem asa é o mesmo de uma animal sem as patas, incapaz de andar.

O que salvou as guerreiras aladas foram seus animais, que sentindo a dor de suas amigas, cavalgaram para longe, em direção de abrigo.
Isis, deusa da magia de Inun, convocou um dos feitiços mais poderosos de Inun. Uma bola enorme de ectoplasma, que sugava todos os anjos num raio de dez quilômetros.

Nas águas do rio Stix, a deusa Estige, divindade responsável pelo rio no reino de Ômega, comandava várias Náiades (ninfas das águas), Nereidas (ninfas do mar) e outros seres da cidade de Atlântida, governada por Poseidon, contra os anjos da casta dos Marines, anjos elementares que dominavam o poder das aguas dos rios e do mar. Tritão, filho e herdeiro de Poseidon, comandava os Sereianos e outras criaturas marinhas, como os Telquines e Centímanos.

Enquanto os Três Grandes observavam, a batalha seguia equilibrada. Em alguns pontos os avanços dos deuses era notório, mas em outros lugares estratégicos, os guerreiros de Ômega caiam aos montes pelas armas dos Celestes de Alpha.

Foi então que uma corneta tocou e Odin e os demais deuses de Asgard chegaram à batalha junto com Elfos, Anões, Ents e outros seres fantásticos de Asgard e seus aliados. Aquilo deu um novo fôlego para os guerreiros deuses, que voltaram a batalhar com as forças renovadas.

– Bem, Odin chegou – disse Zeus.

– Já não era sem hora. Agora sim, a esperança dos celestes desmoronará – disse Hades.

Poseidon mais uma vez se absteve de fazer qualquer comentário. Segurou com força seu tridente. Seus músculos tremiam ante a expectativa da batalha. Olhou para seus irmãos ao seu lado e disse simplesmente.

– Vamos.

Zeus e Hades assentiram. Os três irmãos se desmaterializaram e surgiram no meio do campo de batalha. Olharam em volta e viram que onde estavam o avanço de inimigo era maior. As tropas de Odin estavam do outro lado, retalhando os guerreiros angélicos.

Zeus viu quando um anjo deu um golpe horizontal nas costas de Hefésto. O senhor das forjas
caiu de joelhos, seu martelo de guerra perdendo-se entre as pernas dos guerreiros. Ele jamais chegaria a tempo de ajudar seu filho. Quando o anjo ergueu a espada para o golpe final, o milagre aconteceu.

O guerreiro celestial arregalou os olhos, soltou uma golfada de sangue pela boca e deixou cair a espada. Uma lamina perfurou se peito e ele colocou a mão sobre o coração antes da lamina ser retirada e ele cair no chão.

Atrás dele estava Ares, os olhos chamejantes. Enquanto o senhor da guerra, junto com Hades e Poseidon, faziam um circulo de segurança ao redor de Hefesto, Zeus se abaixou ao lado do filho.

– Hefesto! Hefesto, acorde!

O homem abriu os olhos aos poucos. Sua longa barba estava cheia do sangue que tinha saído de sua boca. Ele pareceu não reconhecer seu pai, balbuciando palavras sem nexo.

– Apolo! – Bradou o senhor do Olimpo – Apolo!

Um minuto depois, uma águia gigante pousou dentro do círdulo. Apolo e Artemis desceram do animal que alçou vôo novamente de volta para a batalha. Apolo se ajoelhou e tomo a mão do irmão e começou a entoar um mantra de cura, enquanto pegava itens curativos de sua bolsa.Artemis se uniu a seus tios e seu irmão na batalha contra os inimigos.

Odin cavalgava no meio dos exércitos em seu cavalo Sleipnir. Sua lança descia sobre os inimigos tão rapidamente que eles não tinham tempo de ver o que acontecia. Afinal, não era a toa que Sleipnir era considerado o cavalo mais rápido do mundo.

Dos céus, o Gabriel, o senhor dos Malakins, observava incrédulo a destruição que Odin fazia nas fileiras dos exércitos celestes. Livrou-se do último inimigo com um golpe certeiro no coração do animal que os deuses chamavam de Grifo e olhou em volta. Com um brado, chamou o general mais próximo dele.

– Uriel!

O general de Celestia desviou da pata de um grifo e com um golpe rápido separou a cabeça do animal do corpo. Em segundos estava ao lado de Gabriel.

– Sim, meu senhor.

– Deixo o controle de tudo aqui com você.

– Certo. Mas senhor…

– Fique tranqüilo, Uriel. Apenas eu posso deter o pai de todos.

O anjo Gabriel era o mais rápido de todo o reino de Alpha. Era o único que podia fazer frente a velocidade de Sleipnir e o poder de Odin combinados. Ele calculou a trajetória do rei de Asgard e desceu dos céus para interceptá-lo.
Mas, para a frustração de Gabriel e a salvação de Odin, Sleipnir era um animal inteligente, capaz de se comunicar com seu dono através de telepatia. Ele só precisou dar um grito para que o pai de todos soubesse da ameaça que descia velozmente para destrui-lo.

“ODIN!”

Foi a única palavra que o cavalo gritou na mente do rei, antes de frear sua corrida. Na mesma hora, Odin deu um impulso para os céus e encontrou-se com Gabriel, lança contra espada, deus contra anjo.

O barulho foi ensurdecedor. Sleipnir partiu novamente para a batalha enquanto Odin e Gabriel iam para o chão. Não restava um único guerreiro por quilômetros. Todos foram lançados longe pelo poder do gigante deAsgard e do gigante de Celestia.

Eles caíram em pé, mirando um ao outro, os nós dos dedos brancos em volta das armas. A lança dourada de Odin contra a espada prateada de Gabriel. Essas eram duas das armas mais poderosas de todo o mundo.

Com berros que repercutiram pelo universo, eles se atacaram.

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